sexta-feira, setembro 17, 2004

O Pescador

Soprou o vento violento
Ergueram-se as vagas no mar
E a tempestade e o firmamento
Sobre a barcaça a naufragar

O homem perdeu as redes
E luta com as ondas do mar
Tão altas parecem paredes
Desabam no seu afogar

Todo o céu escureceu
Choram gaivotas a voar
Por um homem que morreu
Que partiu sem mais voltar

O mar perdeu a cor
Está uma mulher a chamar
Oh pescador, meu pescador
É a tua esposa a chorar

Gritam beatas nas praias
Choram na areia a velar
E arregaçam as suas saias
De joelhos a rezar

Cabelos envoltos em véus
Em murmúrios a soluçar
E juntas bradam aos céus
Pelo pescador a afogar

Um homem de meia-idade
Era o pescador desta aldeia
Foi morto pela tempestade
E jaz sem vida na areia

Deixa filho e viúva no lar
Na casa de pedra sem cal
E as Famílias vão enlutar
Na Aldeia do Areal

Começa o penoso cortejo
No fim do dia enublado
Ouço o padre e não o vejo
Num mar de gente atolado

Vem a frente o sacristão
Traz os olhos rasos de água
E uma criança pela mão
O filho daquela mágoa

O padre fala da morte
Mas ninguém o está a ouvir
Que a aldeia perdeu o norte
E a chuva começa a cair

Choram mulheres pelos cantos
A boca escondida na mão
Afogam-se em choros e prantos
E afundam os olhos no chão

Eu sou o coveiro da terra
Nunca me viram chorar
Desço do alto da serra
Para a morte anunciar

Lá vem o maldito coveiro
Desdizem ao ver-me chegar
Porque afundou o pesqueiro
E o pescador perdeu-se no Mar

Abro uma cova no chão
Para o pescador enterrar
Sete palmos de caixão
Sem um remo para ajudar

As mãos querem sangrar
Com a pá a terra apartada
Mas continuo a cavar
Sem forquilha nem enchada

Baixo o caixão da carreta
Dou início ao funeral
Lanço as cordas à valeta
Cubro a mortalha com cal

Bate a madeira no fundo
Vai agora a enterrar
Um homem que era do mundo
E perdeu a vida no mar

Os homens lançam areia
Com as mãos a ajudar
E lembram à hora da ceia
O compadre que eu vim enterrar

Que eu sou o coveiro e não choro
Não falo nem mostro o olhar
Não sabem sequer onde eu moro
Se é em terra ou se é no Mar

Que o povo comigo não fala
Coveiro que os vai enterrar
E até o mais forte se cala
Com medo que o venha buscar

E à noite no meu recanto
Se ouço o meu nome chamar
Cubro-me de negro manto
Corro no escuro a gritar

Cavo um buraco na areia
E abro o caixão ao luar
Que era o pescador lá da aldeia
Que estava por mim a chamar

Arrasto o cadáver pesado
Pela areia em pesado arrastar
E quando à praia chegado
Devolvo o pescador ao mar

FGA, Julho 1995