sexta-feira, abril 06, 2012

Southbound trilogy - parte II

Parecia-lhe que a semana desfilara num ápice desde segunda-feira até à véspera do feriado. Sentia-se embriagado com a vitória do Sporting e com a perspectiva da Páscoa, não pela efeméride, que ele até se autoproclamava ateu, mas pelos dias despreocupados que tinha pela frente. Naquele momento a madrugada já ia alta, depois da queca mal dada e de ela, escadeirada, deixar esvanecer o corpo de criança, adormecido enrolado na beira da cama, ele deu consigo parado no meio da sala a contemplar o escuro que a noite mostrava entre a sua janela suja e a fachada mal iluminada do prédio oposto ao seu, onde um correr de carros estacionados em espinha lhe enganavam os sentidos e mostravam uma qualquer paisagem que amargurava não ter ali, nos subúrbios da cidade.
A insónia, crónica, era congénita – dizia ele a si próprio – e resignava-se a essa condição lendo prefácios e sinopses que lhe permitiriam depois dar ideia de ter lido livros inteiros, numa falácia inocente em género de construção de imagem falsa de si, ferramenta que tinha trazido desde a adolescência e da qual a sua baixa auto-estima dificilmente iria conseguir sair. Vivia assim, escorado em semi-sucessos, numa meia verdade de si mesmo, e sabia-o.
Pegou no iPad em modo de stand by e deslizou os dedos no escuro do ecrã... Havia algo na sua mente que há meses tilintava, como uma pequena luz de presença, um alerta, que mesmo que desvalorizasse pela distância, fazia-o olhar por cima do ombro de vez em quando... ainda não estava recomposto de ter sido desmascarado, e de não ter contudo sido exposto por isso, não compreendia que isso não tivesse acontecido. Olhar por cima do ombro, mais do que o seu natural receio do desconhecido, era forma de aguardar pelo que interiorizara já ser uma inevitabilidade, mais tarde ou mais cedo iria ter que lidar com consequências, afligia-o não saber quando isso poderia acontecer, ou em que formato... quando é que o passado lhe viria bater à porta?
A distância, ficara bem demonstrado, é relativa, e ele cada vez mais tem algo a perder... tudo aquilo mais a mensagem que rasgara o momento horas antes, que nem era para ele, lembrara-lhe que não estava seguro, nunca iria estar, e isso só por si já era suficiente para lhe legitimar a insónia.
De tablet na mão, sentia-se protegido e incógnito, escondido na característica etérea da ligação sem-fios do aparelho. Abriu o separador tantas vezes actualizado do motor de pesquisa e os seus dedos tactearam aquelas 3 palavras sem espaços. Escolheu o primeiro link da lista no gesto mecânico e leu excertos na diagonal, como se as palavras lhe fossem escapar, sem se aperceber que enquanto lia, os dedos da mão lhe acariciavam o contorno irregular dos dentes...

7 passageiros clandestinos:

Blogger Sa(ha)ra chamou a hospedeira e disse:

Nunca te aconteceu o passado ser tão presente...e o presente ter sido sempre o passado? :-)



Bom feriado!
Sara

12:06 PM  
Anonymous Anônimo chamou a hospedeira e disse:

nunca sei se escreves sobre a realidade ou sobre a ficção mas cada vez que aqui passo gosto de ler o que deixaste escrito

4:47 PM  
Blogger Piloto Automatico chamou a hospedeira e disse:

Sara dos Desertos: Pessoalmente tenho o meu passado resolvido, e vivo o presente apenas como meio de construir o futuro...
Mas já me aconteceu o passado de outrém estar presente na minha vida de forma devastadora. Resultado? Another brick on the wall.

Anónimo: Ficção? Não é só a minha vida, mas com tantas aves raras que me aparecem à frente (como é o caso), para que preciso de ficção, quando posso escrever ad infinitum sobre a realidade?
Obrigado pela visita (tens nome?)

3:39 PM  
Blogger Smootha chamou a hospedeira e disse:

Belo

9:26 PM  
Blogger Piloto Automatico chamou a hospedeira e disse:

Smootha: Obrigado (I guess).
De um ponto de vista literário, este estilo chama-se "Locus Horrendus", é o formato "belo" - como lhe chamas - a descrever o horrivel e feio. O Locus Horrendus tem o timbre de um Dante, de um António Nobre, e até a espaços de um Barbosa du Bocage... É o oposto da corrente "Locus Amenus", o bonitinho formatado, a primavera, os passarinhos e as paixões assolapadas de adolescentes adultas.
Been there, done that.
Bjs
F

11:59 PM  
Blogger Henrique Mário Soares chamou a hospedeira e disse:

Patricio, sempre magistral. Um abraço Amigo. Bom fim-de-semana.

3:19 PM  
Blogger Piloto Automatico chamou a hospedeira e disse:

Henrique: Obrigado pelas palavras... sabes como é, não me faltam fontes.
Abraço
F

8:07 PM  

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