quinta-feira, dezembro 15, 2011

Insónia

Lembro-me bem da última vez que um assunto qualquer me tirou o sono... Não porque tenha sido “qualquer assunto”, mas porque para mim, na altura, o assunto tinha a importância que tinha, era importante para mim e por muito que eu o tenha agora despido da importância que teve, a realidade é que teve importância, e eu seria apenas mais um a enganar-me a mim próprio se viesse agora dizer (ou forçar-me a acreditar) que o assunto não mereceu importância. Mereceu, mesmo que a minha capacidade para o resolver tenha sido desadequada ou insuficiente, porque o assunto esteve lá, arrastou-se, insistiu, persistiu (mais do que eu) e venceu-me enfim pela minha inacção... Lembro-me que se arrastou durante 2 anos, 2 anos sem dormir em condições, 2 anos a acreditar já não sei muito bem em quê, numa mentira pelo meio de muitas omissões, numa amalgama de sonhos vãos e superficiais, juvenis sem dúvida, e as evidências estão há vista mesmo que há muito tempo tenha deixado de as combater... Eu assumo as escolhas que faço, mas antes não o fizesse, tapava o sol com uma peneira e enchia-me de mim próprio sem qualquer valor ético ou moral ou outro atrofio qualquer desenquadrado dos dias que correm. Antes soubesse também eu sacudir a água do capote e nunca ter de admitir um erro, ou o alimentar contínuo de uma falácia, ou estar na vida encafuado numa zona de conforto hermética, ou fazer escolhas como quem escolhe um livro da prateleira, ou ainda do outro lado da moeda socorrer-me de uma vesga qualquer para encobrir as minhas manhas, encher-me de vaidade para esconder os dentes tortos, ou servir-me de uma flauta para encantar serpentes... Não, não sei fazer nada disso, nem sei se alguma falta me faz...
Uma pessoa pode passar anos consciente de si próprio e dos seus defeitos a tentar construir em si uma pessoa melhor, mas cada dia que passa, cada nova cicatriz, deita por terra todos esses esforços, como uma pessônha qualquer que se agarra a uma perna e nos faz coxear.
Hoje o assunto que me tira o sono é outro, é trivial em certa medida, banal no espectro do tempo e do traquejo, mas importante o suficiente na transição de ontem para amanhã, importante o suficiente no instantâneo para me fazer rebolar na roupa da cama entre arranques apeneicos e sobressaltos despertos pelo barulho do eco.
Considero que a perda de sono é um estado de alerta e defesa, há mais de 6 meses que durmo bem, tranquilo e de consciência imaculada, e valorizo o meu sono agora tanto como o devia ter feito quando por acreditar... deixei que perturbassem o meu sono, tempo demais.
Quanto ao assunto em si... nada que não se resolva nos primeiros 30 minutos do dia, tal como o assunto anterior se teria facilmente resolvido com um bilhete de intercidades e duas galhêtas na tromba... mas não é o assunto em si, são as implicações, são os danos colaterais, é o potencial explosivo, é o efeito Ripples, é o não ser inconsequente... É sobretudo ser coerente!
Agora vou dormir

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