segunda-feira, março 10, 2008

Mudam-se os hábitos, perdem-se as virtudes

Passou-se há poucos dias; Não me lembro de onde vinha, mas ainda não era tarde. Estacionei em frente ao prédio em jeito de matador que manipula o volante com uma mão e estaciona a olhar só para os retrovisores ao mesmo tempo que compõe o nó da gravata, desaperta o cinto-de-segurança e desliga o auto-radio num só movimento. Ao aproximar-me da porta de entrada deparei-me com um vulto deitado no chão em posição fetal... Já ia com as chaves na mão e passei em modo stealth por cima do vulto imóvel, abri a porta num único gesto e já dentro do hall enquanto esperava que a porta se fechasse (e que ficava bem fechada) observei o vulto que lentamente ergueu a cabeça e num murmurado grunhido - imperceptível - me dirigiu a palavra...
Ignorei completamente, a porta fechou-se nesse segundo e nada daquilo me afectou.
Enquanto subia os degraus 2 a 2 lembrei-me de algumas histórias de cenas destas que aparentemente se passavam a determinada altura em frente deste prédio, cenas destas e outras que tal, cenas que tanto se vêem um pouco por toda a parte mas que aqui, neste prédio, só ouvi falar...
Antes de chegar ao segundo andar apercebi-me que não tinha verificado a caixa do correio e ocorreu-me que afinal aquela cena até me tinha afectado, pelo menos na rotina.
Já passaram vários dias e tenho-me encontrado várias vezes a reflectir sobre a minha reacção face a aquela situação...
...Não me reconheço.
A verdade é esta, eu não me reconheço ... e não é pela minha reacção, essa foi quase premeditada, foi uma reacção tomada em piloto automático e provavelmente voltarei a ter a mesma reacção no futuro tal como quando nego uns trocos a um pit'chaúba, quando peço ao Romeno que me quer vender pensos-rápidos no semáforo para ter paciência, ou quando os óculos-escuros simplesmente transformam os arrumadores em seres invisiveis...
Não, eu não me reconheço no exacto momento em que espero que a porta se feche, em que me apercebo que alguém me está a dirigir a palavra e eu ignoro sem me aperceber que o estou a fazer...
Não, não é bem isto...
Eu não me reconheço por fingir que não me apercebo que estou a ignorar quando na realidade, intimamente, eu sei bem que estava a ignorar.
Não engano ninguém mais do que me engano a mim mesmo.
O que seria que aquele vulto deitado no chão me queria dizer?
Estaria bêbado?
Drogado?
Será que me ia pedir trocos?
Ou será que estava ferido e precisava da minha ajuda?
Será que me queria avisar que estava um bandido dentro do prédio?
Ou estaria simplesmente desfalecido com fome?
Estaria só a dormir?
Estaria a chorar?
Ou teria tido um ataque de epilepsia que foi ignorado por outros que por ele passaram antes de mim?
Estaria a pedir desculpa pelo incómodo de me fazer passar por cima dele?
Mas o que é que ele me queria dizer?

3 passageiros clandestinos:

Blogger Smootha chamou a hospedeira e disse:

Infelizmente é assim que reagimos.
A loucura que nos rodeia, de forma consciente ou não, leva-nos a fechar os olhos, ignorar aquilo que vemos para mais tarde, ao pensar nisso, nos tentarmos convencer de que não aconteceu.

10:20 da manhã  
Blogger maria-joão chamou a hospedeira e disse:

Estes são os homens de hoje.
Para onde caminharemos?

11:10 da manhã  
Anonymous Anónimo chamou a hospedeira e disse:

Como me identifiquei.....
eeeemaaaaaa

1:49 da tarde  

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